O DJ Cremoso conseguiu em pouco tempo demonstrar que com muita criatividade, é possível fazer sucesso e conquistar uma quantidade enorme de fãs. Ele tem tantos e fiéis defensores, que os artigos que o pessoal do PorraDj fez sobre ele, tiveram que ser apagados devido a grande quantidade de ameaças que os donos do site receberam.

O competente Lucio K, fez uma excelente entrevista que tenta desvendar quem é o novo fenômeno da música eletrônica brasileira.

QUEM É DJ CREMOSO? – Por Lucio K

Há pouco tempo ouvi falar de um cara que tava fazendo versões tecnobregas (ritmo dominante dos bailes de Belém do Pará) de hits pop internacionais, mas estranhamente não os hits do tipo que os DJs paraenses geralmente escolhem, e sim Nirvana, Radiohead e R.E.M.. Fui conferir esse inusitado som e me deparei com um mistério: Os arranjos, apesar de feitos com timbres bem simples, simulando algo trash, eram dignos de um CDF musical. Baixou o “repórter investigativo” em mim e fui conferir quem estava por trás do personagem “DJ Cremoso”, e fiquei ainda mais surpreso com as descobertas, que nos levam questões interessantes como a realidade atual da musica brasileira, estratégias de marketing e análises de como nós enxergamos nossa própria música regional.

Acho muito interessante esse caminho de adaptar uma cultura de fora, como acontece com DJs fazendo versões funk carioca de músicas pop, ou como o cantor/produtor Thiago Correa (http://www.thiagocorrea.com/) tem feito com suas versões samba-rock. Quem está ligado na música mundial sabe que isso é uma tendência nos quatro cantos do mundo: valorizar cada vez mais a cultura local. O trabalho do DJ Cremoso vale a pena ser prestigiado não só em nome da diversidade, mas até pra motivar a outros DJs criarem suas versões e suas músicas. O Brasil ainda está muito devagar nisso.

O criador do DJ Cremoso preferiu não se identificar, porque tudo isso ele diz que é um “experimento”. Garantiu que não é nem quer ser DJ realmente, que não fará apresentações e que o anonimato é imprescindivel para seus objetivos. “Se não fosse anonimamente, as pessoas iriam associar ao meu trabalho autoral real, que é bem conhecido, e iriam confundir as coisas” me disse. Compreendi bem, afinal passo por isso: o meu trabalho com mashups (http://soundcloud.com/lucio_k), que é uma piada musical, é confundido por muitos com o meu trabalho de produção musical autoral. DJ Cremoso não quis dar tantos detalhes, afinal o “mistério” faz parte, mas me deu a impressão de que está estudando a relação das pessoas com a música e estratégias de marketing(como viralização, tão em moda hoje em dia) pra usar em seu próprio trabalho como produtor musical. Contou que está fazendo um experimento para descobrir como uma personalidade virtual, do zero, se torna popular. E se tratando de popularidade, está se saindo muito bem: Começando a se divulgar no final de fevereiro deste ano, DJ Cremoso já tem em média 700 downloads de cada versão sua, e já foi chamado para tocar em Paris, Estocolmo e convidado para uma matéria do Fantástico. Vamos ver o que o criador do DJ Cremoso tem a nos mostrar, em entrevista feita por email:

DJ LK – Primeiro de tudo quero dizer que gosto do seu trabalho. Acho válido como bom humor, válido pela importância da diversidade, válido como incentivo pra DJs e músicos também produzirem suas versões e válido como uma adaptação à uma cultura regional brasileira. Como surgiu esse projeto?

Cremoso – Planejei o conceito e as estratégias de divulgação, mas a aceitação tem sido uma surpresa desde o primeiro dia.

DJ LK – Qual a sua relação com o estilo tecnobrega e o que acha dessa cultura?

Cremoso – Eu acho o tecnobrega um estilo musical muito doido. Costumo dizer que ele foi forjado pela falta de formação musical de algumas pessoas que tiveram acesso às ferramentas de produção. As vezes ser músico lhe impede de fazer coisas que uma pessoa leiga faria. A cultura do tecnobrega é a cultura em que todos podem compor / cantar / produzir / tocar. Isso é interessante sob o ponto de vista do surgimento de nova idéias e novas formas de se fazer música. Mas pode ser cansativo quando certos temas ficam muito recorrentes ou os cantores muito desafinados. Nesse último caso, pode ser engraçado numa primeira ouvida, mas não se configura mais num passo à frente, musicalmente falando.

DJ LK – Você tem alguma instrução formal como músico? Aulas de teclado ou algo do tipo?

Cremoso – Nunca tive instrução formal, mas tenho o ouvido muito bom. E aí fica fácil de colocar as notas certas no computador.

DJ LK – Você se considera musico ou DJ? Ou pensa em ser musico ou DJ?

Cremoso – Nem uma coisa e nem outra. Prefiro produzir. O estúdio é um ambiente controlado, onde é possível se refazer as coisas até que fiquem boas. E eu nunca seria DJ porque sou incapaz de fazer algo além de apertar o play e esperar a música acabar. E que, apesar de muita gente que se diz DJ fazer assim, eu não faço porque entendo que ser DJ é uma coisa bem mais complexa. Eu diria que minha postura é inclusive bem respeitosa para com os DJs de verdade.

DJ LK – Quando começou a produzir? (Cremoso me garantiu que conhece a fundo praticamente todos os principais softwares de produção)

Cremoso – Já faz tempo que eu experimento com várias coisas. Mas nunca lancei nada. Hoje o conhecimento que eu tenho foi adquirido por meio de tentativas e erros mesmo.

DJ LK – Por que você acha que um trabalho mais em cima do tecnobrega iria chamar mais a atenção agora?

Cremoso – Por causa do crescimento desse estilo, que vem penetrando em todas as classes sociais e intelectuais, e não mais fica preso apenas à periferia.

DJ LK – Acho muito engracado que existem pessoas que nem percebem o quanto bem arranjadas suas musicas são, apenas percebem que ela está no nicho do “tecnobrega” e logo chamam de tosco, mal feito. O que você acha disso e quais as reações das pessoas que têm te surpreendido mais?

Cremoso – Eu não procuro saber o que acham dos remixes. Só leio os comentários endereçados diretamente a mim, como aqueles que deixam no Soundcloud (http://soundcloud.com/djcremoso). E assim, acho que quem não gosta é porque não entendeu a piada. Ou então porque queria ter feito antes mas não foi capaz tecnicamente e nem teve a idéia na hora certa. De toda forma, se eu fosse um dos artistas remixados, eu acharia ótimo alguém ter feito um remix tão pitoresco da minha música.

DJ LK – Você conseguiu rapidamente popularidade na internet. Mas e sobre aqueles que criticam o seu trabalho, negativamente, dizendo que você “estraga as musicas”, o que acha e tem a dizer?

Cremoso – É tudo uma grande piada. Não tem como “estragar” as músicas originais porque um remix meu não vai se tornar mais popular que as versões originais. E eu acredito de verdade que os artistas originais preferem ouvir um remix engraçado do que alguém traduzindo a música deles pra algum conteúdo de duplo sentido vulgar e cantasse completamente desafinado.

DJ LK – O que é “trash” pra você?

Cremoso – Não existe nada trash no mundo. É tudo uma questão de ponto de vista. Eu acho muito bom o trash genuíno, em que a pessoa faz acreditando que realmente aquilo é uma coisa boa, mesmo sendo ruim. E não gosto quando fica evidente que desde o começo a intenção era ser trash. Tudo que eu quis com o DJ Cremoso foi fazer algo o máximo improvável, inusitado. Eu não acho trash, mas quem tem que classificar são os outros.

DJ LK – O que você acha sobre a falta de recursos vs. a criatividade do DJ/produtor brasileiro?

Cremoso – A falta de recursos não é mais desculpa, já que dá para fazer produções decentes em computadores baratos. Num cenário desses, mais do que recursos, o que acaba faltando é capacidade de quem está operando a máquina.

DJ LK – Até quando vai existir o DJ Cremoso? O que esse “experimento” já te mostrou e te deu de idéias para o seu trabalho autoral?

Cremoso – Vai chegar um dia que vou parar de remixar de repente, e do mesmo jeito que apareci, desaparecerei. E agora já tenho uma noção razoável de como um produto pode virar hit de uma hora para outra. Mas ainda preciso saber até onde isso vai chegar. E isso, claro, esclarece muitos pontos que podem ser bem úteis em qualquer trabalho autoral.

DJ LK – E você já pensou na possibilidade do trabalho do DJ Cremoso ficar tão grande que seja inevitável fazer disso uma carreira? Aproveitar esse sucesso para levar música para as pessoas de uma forma mais popular? Da “criatura DJ Cremoso” ultrapassar o seu “mestre”? Como seria isso?

Cremoso – Não seria. Não vejo nenhuma situação em que isso possa virar uma carreira. E olhe que tenho recebido propostas bem tentadoras. Mas, como eu disse, tenho que ver até onde isso vai chegar.