A pouco mais de um mês eu escrevi o artigo O futuro dos DJs – Vire músico e conquiste o seu mundo, ele gerou boas discussões aqui no site, na semana passada descobri (pelas mãos do Mateus B.), que o post estava sendo em parte distorcido em uma comunidade no Orkut – 128 Bpm, respondi muitas das questões levantadas e no meio do turbilhão, conheci o Binho C.A, prontamente convidei ele, para escrever uma réplica em resposta ao meu artigo original, o texto abaixo é fruto disso.

Acredito que um ponto de vista contrário, quando bem embasado só tende a reforçar e polarizar (entre quem gostou ou não) o conteúdo original.

Entre tecnologia e banalização por Binho C.A

Este artigo foi escrito por Binho C.A

A partir do final do século XIX, com o advento da gravação sonora, a forma de como ouvimos e interpretamos a música vem mudando constante e incessantemente. Se antes de 1877 as pessoas somente podiam ouvir música reunindo-se em grupos para ouvir artistas se apresentarem ao vivo, após esse período – com a vinda da radiodifusão, da gravação magnética, dos LP, do CD e até então da MP3 – a forma de se ouvi-la tem tornado-se um fenômeno cada vez mais pessoal. Do teatro passamos a ver os 5 amigos em volta do novo LP dos Beatles e finalmente o indivíduo indo para o trabalho com seu MP3 player tocando tecno melody – O xodozão do Pará encontrado em um grupo qualquer do Soundcloud.

Nesse processo de evolução, devemos destacar a tecnologia como mola propulsora da questão que vamos levantar. Sempre aparecendo como uma espécie de facilitadora de processos complicados, ela sempre vai promover o bem estar em nossa vida através de maneiras mais fáceis e precisas de se entender e utilizar as coisas. Quem poderia imaginar que hoje pode-se gravar um álbum de banda tendo cada um de seus integrantes na sua própria casa, cada um em seu país? Realmente a tecnologia nos ajuda a trabalhar de forma melhor, poupando-nos o tempo.

Tecnologia é fundamental para a evolução de qualquer cenário, seja ele musical, comercial, mídia, televisão. Ela nos trás melhores ferramentas para desenvolver nossas atividades; a Internet e o Java Script revolucionaram a forma de como os DJs interagem com seu mercado, trazendo de forma cômoda para dentro de seu quarto as músicas que antes precisavam de muitos passos pelos calçadões da cidade. O Ableton Live e o Traktor abriram novas possibilidades de executar os sets. As controladoras MIDI atuam como o volante de softwares que antes eram na base do mouse.

Mas, com toda essa avalanche de praticidade fornecida pelas empresas loucas por venda, acabamos perdendo muitos princípios importantes para o bom desenvolvimento da música, que até onde eu sei ainda é Arte. Estamos cada vez nos prendendo a técnicas, como se aprendendo a usar uma espátula se vai conseguir criar uma bela obra de arte. Logicamente que não! Com certeza a ferramenta aproxima essa possibilidade, porém o processo criativo ainda é mérito do artista (graças a Deus), senão teremos que concordar que o DJ do vinil é pior que o DJ do Mac com controladoras, e não é bem por ai. Vemos bons artistas tanto de um lado como de outro.

Então o que faz a diferença? O que faz diminuir a barreira entre o rico que pode comprar tudo o que o mercado oferece e o pobre que tem que se contentar a baixar música de blog; entre o cara que se fascinou com o último DJ e quer fazer igual e o experiente DJ que estacionou no minimal-techouse é sem dúvida a disposição focada para o conteúdo, ou seja, o número de horas que esse sujeito investe do seu dia a dia no conhecimento de mais artistas, mais músicas, mais sets, cultura musical de outros países, bem como os movimentos musicais de cada região. Você sabia que cada região do Planeta tem uma sonoridade específica relacionada a sua história cultural? Pois é…

Alguém que se disponha a participar de um mercado movimentado como o da música eletrônica, deve ouvir música 24 horas por dia, de tudo um muito (é sim, dos que ouvem de tudo um pouco já está cheio). Podemos salientar para se destacar na banalização da cultura DJ e da música eletrônica, em meio a toda essa revolução tecnológica, para você que produz ou quer produzir, toca ou quer tocar é essa: cair de ouvidos na música (de corpo, alma e coração) rumo ao desconhecido. Ouça muito de tudo, tudo mesmo, sem pré conceitos, com a curiosidade de uma criança – geralmente as novas ondas musicais soam como algo muito indigesto, fique atento a elas. Busque referências significativas na música. Quem deu a nova cara do minimal? O que esses caras andam dizendo? Você concorda? O que andam ouvindo? De onde vieram? Com quem produzem?… são perguntas pertinentes neste caminho. Conheça a fundo, muito!

Se você quer espalhar alegria pelo mundo através da música e ser reconhecido por isso não corra atrás, pois, justamente, já está atrás. Se quiser ser reconhecido pelo trabalho, tem que correr é na frente!.Não é difícil conhecer pessoas que produzem ou tocam e que sequer conseguem elencar 10 artistas como referência de seu trabalho, quando não percebemos incoerências do tipo: “Deadmau5, Sasha, Fatboy, Dubfire”; assim não dá né, vago mestre? Esse prato está muito raso para alguém poder se alimentar dele.

Boa sorte!

“Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés.” (Joseph Joubert)